Notícias » 21/12/2016

Cardeal Tauran: “O diálogo não é uma fraqueza”

“O diálogo com os muçulmanos deve continuar, porque a alternativa seria a violência. Todavia, deve ficar claro que desejamos o diálogo, mas não a ‘submissão'”.

No dia seguinte ao atentado que atingiu o coração de Berlim, o Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, Cardeal Jean Louis Tauran, continua a repetir – nos passos do Papa Francisco – que é necessário “um diálogo da esperança, para reiterar que as religiões não são o problema, mas fazem parte da solução daquilo que está acontecendo no mundo”.

Ne entrevista concedida ao “L’Osservatore Romano”, o purpurado francês também faz um balanço do ano acaba e ilustra projetos para o futuro.

OR: A modalidade do ataque de Berlim recorda os fatos sangrentos ocorridos em julho em Nice, seguidos por aqueles de Rouen, que levaram muitos na Europa a uma atitude de fechamento em relação ao Islã. Isso sem falar na tragédia de Aleppo e no recente atentado na Catedral copta da capital egípcia. Diante de tudo isto, é possível ainda falar de diálogo?

“É precisamente devido a esta situação que se impõe um atenção particular ao mundo muçulmano. Todos ficamos abalados pelo que aconteceu na Alemanha, no Egito e antes ainda na França, na minha pátria. Mas naquela circunstância, por exemplo, pudemos também apreciar – em particular após o homicídio do idoso sacerdote Jacques Hammel – como que um despertar da identidade religiosa da maioria dos franceses, assim como a solidariedade expressa pelos muçulmanos da região. Com grande sofrimento, continuamos a assistir a atos de brutalidade insensata que atingem pessoas inocentes na sua vida cotidiana. Diante destes atos, do drama das migrações, da crise internacional, sobretudo diante da situação de conflito na Síria, grande é a tentação do derrotismo. Mas é justamente então que é necessário continuar a acreditar no diálogo, que é essencial para toda a humanidade”.

OR: Como esse diálogo pode ser levado em frente no dia a dia?

“Todos devem aprofundar o conhecimento da própria religião e entender que o diálogo não é reservado aos “especialistas”. Todos devemos renunciar aos comportamentos de suspeita ou de polêmica em mérito às nossas motivações. Praticando, na liberdade e no respeito do direito, tudo aquilo que a maioria das religiões têm em comum – oração, jejum, esmola, peregrinação – demonstraremos que os fieis praticantes são um fator de paz para a sociedade humana. No mundo precário de hoje, o diálogo entre as religiões não é um sinal de fraqueza. Ele encontra a sua razão de ser no diálogo de Deus com a humanidade”.

OR: Que imagem o senhor usaria para sintetizar os frutos do diálogo inter-religioso realizado no ano que está por terminar?

“Certamente, a do encontro entre o Papa Francisco e o Grão Imame de Al-Azhar. Em 23 de maio o Xeique Ahmad Muhammad al-Tayyeb chegou ao Vaticano com uma delegação de alto nível, do qual faziam parte, entre outros, os professores Abbas Shouman, Sub-Secretário da prestigiosa instituição acadêmica muçulmana sunita, e Mahmoud Hamdi Zakzouk, Diretor do Centro para o diálogo de Al-Azhar. O Grão Imame foi acolhido por mim e pelo Bispo Secretário de nosso dicastério Miguel Ángel Guixot, e o acompanhamos no encontro com o Papa. No colóquio, foi reiterada a necessidade de um esforço comum dos responsáveis e dos fieis das grandes religiões, pela paz no mundo, com a rejeição da violência e do terrorismo, e falou-se da situação dos cristãos no contexto dos conflitos e das tensões no Médio Oriente”.

OR: O Papa Francisco, diversas vezes repetiu que o Islã não deve ser identificado com violência…

“E não só. Em uma pergunta específica no voo de retorno da Polônia, em 31 de julho, também assegurou que os muçulmanos buscam a paz, o encontro. E o próprio Xeique al-Tayyeb, em uma entrevista à mídia vaticana logo após a audiência pontifícia, sublinhou que o Islã não tem nada a ver com o terrorismo, porque quem mata deturpa os textos fundamentais, quer intencionalmente quer por negligência, e que é fundamental um esforço conjunto das grandes religiões para dar à humanidade uma nova orientação em direção à misericórdia e a paz neste tempo de grandes crises. Assim, se João Paulo II foi o primeiro Pontífice a visitar o Grão Imame de Al-Azhar na sua viagem ao Egito no Jubileu do ano 2000, o Xeique al-Tayyeb foi o primeiro a visitar o Papa no Vaticano e sempre por ocasião de um Jubileu, o do Ano Santo da Misericórdia, quinze anos mais tarde”.

OR: Qual foi o trabalho “diplomático” que precedeu e acompanhou aquela audiência?

“Em fevereiro Dom Ayuso foi ao Cairo onde, acompanhado em Al-Azhar pelo Núncio Apostólico no Egito, o Arcebispo Bruno Musarò, havia entregue pessoalmente a Shouman uma carta minha, na qual eu expressava a disponibilidade em receber o Grão Imame e em acompanhá-lo na audiência com o Santo Padre. Depois do encontro com o Papa Francisco no Vaticano, Dom Ayuso foi à capital egípcia outras duas vezes – em julho e outubro – para preparar o encontro que marcará a retomada oficial do diálogo entre o Pontifício Conselho e a Universidade no Cairo, programada para Roma em 2017, provavelmente no final de abril”.

OR: Quais foram as outras etapas significativas da atividade do dicastério em 2016?

“No início do ano, teve lugar o Encontro anual em Genebra entre os Oficiais de nosso dicastério e o pessoal do Escritório para o Diálogo Inter-religioso e a Cooperação (IRDC) do Conselho Ecumênico das Igrejas (WCC, sigla em inglês), durante a Semana da Harmonia Inter-religiosa proclamada pelas Nações Unidas. Sempre em janeiro, Dom Ayuso foi a Abu Dabi para o primeiro Arab Thinkers Forum. Era o único relator não muçulmano e pronunciou-se na sessão dedicada ao tema do extremismo, com uma análise das causas e dos possíveis remédios. Em fevereiro, acompanhado pelo Mons. Khaled Akasheh – chefe do Escritório para o Islã – participei pessoalmente da 12ª Interfaith Dialogue Conference, realizada em Doha, no Catar”.

OR: É significativo que mais de uma vez neste ano o Papa tenha realizado antes das Audiências das quartas-feiras breves, mas importantes encontros com expoentes de outras religiões. Qual o sentido destes encontros?

“Foram momentos muito importantes em que o Papa pronunciou breves palavras espontâneas. Com seu jeito gentil, deixou boas lembranças em todos. Testemunharam isto para mim quer os membros do Royal Institute for Interfaith Studies de Amã, na Jordânia, que acompanhei no Vaticano em 4 de maio; quer Haxhi Baba Edmond Brahimah, Chefe da comunidade dos Bektashi, recebido pelo Papa na semana seguinte. Trata-se de uma fraternidade muçulmana de derivação sufi, fundada no século XIV na Turquia e difundida por toda a Albânia. O mesmo ocorreu em 1° de junho com uma delegação jainista formada por 35 pessoas e por fim, em 23 de novembro, com os muçulmanos sunitas iranianos participantes do encontro sobre o extremismo e a violência em nome da religião, que foi promovido pelo nosso Pontifício Conselho com o Islamic Culture ans Relations Organizations (Icro), de Teerã. Ademais, em 7 e 8 de setembro, o nosso dicastério colaborou com a organização do Simpósio “América em diálogo – Nossa casa comum”, promovido pela Organização dos Estados Americanos e pelo Instituto de Diálogo Inter-religioso (Idi) de Buenos Aires, cujos participantes foram recebidos pelo Papa Francisco. E não esqueçamos, por fim, da audiência inter-religiosa desejada pelo Pontífice em 3 de novembro, com a participação de tantos nossos amigos e parceiros no diálogo, entre os quais o Centro Internacional de diálogo em Viena (Kaiciid), que na ocasião também promoveu um colóquio sobre misericórdia na Pontifícia Universidade Gregoriana”.

OR: Pelos números representados pelo continente asiático e pela atenção com que o Papa acompanha o desenrolar dos acontecimento na região, um capítulo importante do diálogo diz respeito ao Oriente. Quais as relações existentes com a Ásia e suas culturas?

“Em maio, o nosso Secretário esteve no Japão para uma consulta de alto nível com os responsáveis religiosos do Oriente Médio sobre o tema da cidadania, para promover uma maior consciência nos Estados de maioria muçulmana. Durante a missa em Tóquio foi também fortalecida a colaboração entre a Igreja Católica e a organização budista Rissho Kosei-kai (RKK). Em outubro, com o Subsecretário Indunil Kodithuwakku, Dom Ayuso foi primeiro a Cingapura e depois a Taiwan, por ocasião do primeiro encontro cristão-taoísta”.

OR: Precisamente para algumas religiões particularmente difundidas no continente, vocês dirigiram mensagens por ocasião de festividades particulares…

“Budistas e cristãos juntos para promover a educação ecológica foi o tema do que enviamos para a Festa de Vesakj, durante a qual são comemorados os principais acontecimentos na vida de Buda. Em outubro enviamos uma mensagem aos hinduístas, focada na importância da família, por ocasião da Festa de Deepavali, que significa “fila de lâmpadas a óleo”, e é simbolicamente fundada em uma antiga mitologia que representa a vitória da verdade sobre a mentira e da luz sobre a trevas. Por fim, por ocasião do mês do Ramadã, em junho houve o tradicional augúrio à comunidade islâmica”.

OR: Um dos momentos centrais do ano de 2016, foi sem dúvida o dia 20 de setembro, em Assis, 30 anos após o histórico encontro que reuniu, ao lado de João Paulo II, responsáveis das principais religiões mundiais. Que significado teve este encontro?

“O encontro de Assis em 1986 projetou a Igreja em direção às religiões não-cristãs. Elas, de fato, não obstante o ensinamento de Paulo VI na sua primeira Encíclica Ecclesiam suam, e do Concílio Vaticano II, com a declaração Nostra Aetate, pareciam distantes, se não, estranhas. Foi o símbolo, a realização da missão da Igreja em um mundo marcado pelo pluralismo religioso. Não por acaso, portanto, o próprio Papa Francisco quis repropor os conteúdos, indo a Assis para um novo dia de oração sobre o tema, ‘Sede de paz. Religiões e culturas em diálogo'”.

Por Rádio Vaticano